Poesias

SEPÉ TIARAJU E O GENERAL

Sepé Tiaraju
-Diante de ti, a nausear-me as narinas,
como amêndoas podres cozidas ao mel de baba de serpente,
há um olor de barbas assassinas,
o asco das masmorras.
Diante de teus dragões de ópera bufa
paira uma nuvem de cogumelos acres,
um mofo europeu a recender da arrogância,
um mofo que traz à luz as sombras da peste,
um mofo de couros que nos encilham os lombos,
uma lei, um tratado de limites, que sabe a sangue.

General Gomes Freire
- Guarani bárbaro!
A espada dos profetas cairá
sobre tua insolente língua morubixaba.

Sepé Tiaraju
A cidade dos Povos, que sagramos com sal,
pão e vinho, entre suores e lágrimas
não será sangrada por generais para o ócio
de fidalgos safados.

General Gomes Freire
Fundido em ouro e prata, o teu sangue bugre
será luzente moeda para as altezas lusitanas.

Sepé Tiaraju
- Caçadores do sonho possível,
aprendemos a pescar com o anzol da alma
o impossível.
Com as armas da palavra
e as setas do orgulho,
não viveremos sob o teu jugo.
Com o carvalho da honra
E o pau-brasil
a vermelhar os brios da vontade,
não calaremos sob a tua chibata.

General Gomes Freire
- Tu, guarani jesuitizado pelo papa negro,
saberás que todo Poder emana de meus mosquetes,
toda lei da boca de meus canhões. Em nome do rei,
saberás que o tratado de limites será cumprido,
e a cada um dos meus dragões caberá escolher
uma vintena de machos, para escravos, e outra,
de fêmeas, com as “vergonhas bem limpas
e saradinhas”, para a cama.

Sepé Tiaraju
- Aqui somos súditos da Natureza:
os ventos reinarão sobre tratados e ordenações.
Aqui a chuva cairá sobre decretos e mandações,
e a terra há de devorar bulas e sanções.
Os céus tombarão sobre as vaidades da Corte,
e a lança missioneira
escavará o umbigo de tua gula.

General Gomes Freire
- Guarani feiticeiro! Teus canhões de taquara
e tua língua de fanfarras e balandronadas
fazem rir os meus dragões, o mundo inteiro, e a mim.

Sepé Tiaraju
- Prender a liberdade,
é prender a infância.
Prender a infância, é
prender os deuses.
Prender os deuses, é
prender a Natureza,
e prender a mãe-natureza é estar morto.
Eis o que não compreendes, o ser diferente,
o outro, o que não está em ti, nem podes possuir,
o peixe de outras águas,
o que não se pode prender em redes.


06/12/2011

 

 

Site da Rede Artistas Gaúchos desenvolvido por wwsites